Contos Que Contam

 

                       Olha... ninguém acredita... mas eu vou contar como escrevi este livro.

                      Eu tinha um caderno, que me deram pra eu fazer de diário... mas as histórias reais da minha vida eram tão fúteis que nem eu mesmo as suportava... e não era iso que eu queria ler depois de passados dez anos ( seu eu estivesse vivo). Então pensei que se escrevesse o que eu visse durante o dia, talvez seria uma espécie de diário... mas não foi bem assim.

                    Dizem que o mentiroso quando mente bem... é porque mente pra si mesmo... dizem que a pior mentira é a contada de si pra si mesmo... numa confabulação interna e angustiante de não-aceitação da realidade... eu digo que esse papo ou me dá nojo, ou tédio e eu logo não dou ouvidos à essas pessoas... tadinhas, eu dou um sorriso e, pensando em outra coisa, vou apenas balançando a cabeça (que saibam por mim isso)...

                   Digo apenas que escrevi o que eu via... não mentia pra mim nem pra ninguém... vi o tiozinho dentro do ônibus (no "A festa II") dar uma facada no meio da testa do assaltante... sim, vi isso... mas niguém naquele ônibus que passava pela Avenida Paula Ferreira, na Vila Bonilha bem no canto Oeste da Zona Oeste de São Paulo... era um ônibus caindo aos pedações, que ia chincalhando entre os buracos e a suspensão arrebentada... ia cheio de gente... e voltava pior.

                   Digo que ria sozinho, com todos cochichando que eu era meio doido, alguns me ignorando, mas me olhando de canto de olho, outros liam e sorriam, assustavam-se... mas, na maioria das vezes... minha letra não entendiam... sim, o Hiago estava escrevendo, em pé, rindo com um lápis na mão direita, passada entre o cano de ferro do ônibus, na esquerda trazia o caderno rabiscado e desfolhado, cheio de orelhas... o lápis riscava fosco, mal fazia contraste com a folha branca... mas eu entendia tudo, e até hoje tenho estas folhas guardadas numa caixa de papelão aqui em casa...

                   Foi assim que escrevi a maioria dos contos deste livro... eu não sentava com uma idéia na cabeça e passava ela pro computador... eu andava com um caderno... e via... sim! eu via o que estava acontecendo, com uma espécie de terceiro olho, no meio da realidade, aqueles contos... um cadáver um dia andou de ônibus, e sentado ao meu lado... sabe, na verdade o passageiro dormia, mas eu não tocava nele, e só de pensar me dá arrepios... ele era pra mim, um morto, não alguém que dormia... entende? era real.

                 Imaginava psicopatas cortando minha cabeça, e a ela eu tateava várias vezes enquanto escrevia, só para ter certeza de que era só no conto que este monstro estava... andava na rua olhando mais pros cantos, pros becos, vielas e esquinas, do que pra onde eu ia... não com medo, mas sim esperando as minhas personagens saírem de onde eu escrevi que sairiam... era sim, uma ficção, mentira, loucura... chame do que quiser... mas não me peça pra te dizer, e nem me diga... que não foi real. Certo?